Sou cristã. Preciso começar esse texto dizendo isso.

Sou a favor da Legalização do Aborto. E sou cristã. E sim, eu já nasci. E sim, eu sou mãe. E sim, fui mãe aos 16 anos.

Ser a favor da Legalização do Aborto não é ser a favor de abortar. Nem significa que eu abortaria em qualquer circunstância. Nem significa que isso é aval pra todo mundo sair por aí transando sem camisinha a torto e a direito.

Embora existam dezenas de motivos para considerar a Legalização do Aborto uma coisa funcional, eu venho falar dessa questão sob meu ponto vista, como cristã, como mulher, como mãe, como cidadã.

Vamos começar do início:

Ouvi uma justificativa de um religioso dizendo assim:

“Sou contra a Legalização do Aborto! E falo pela criança que ainda não tem voz, que não tem quem clame por ela!”

E eu fiquei pensando aqui… Isso não faz sentido!

Pinta a cena comigo:

A mulher engravidou e não quer a criança. Ela quer abortar. Ela não quer ser mãe. A partir desse momento essa criança já começou a ser abortada.

A mulher não consegue abortar e, como acontece na grande maioria das vezes, ela rejeita a criança. Ou ela abandona, ou ela maltrata, ou ela vende pra tráfico sexual, pra tráfico de órgãos, pra trabalho escravo. Essa criança está sendo abortada.

Essa criança cresce. Sem educação, sem amor, sem carinho. Cresce na rua, cresce com fome, com frio, com dor. Dor do abandono, dor de estômago, dor de cabeça. Dor de não ter uma família, dor de não se sentir amada. Essa criança se sente abortada.

Mesmo que esteja num abrigo, aguardando adoção… Quantas crianças realmente encontram um bom lar? Ou apenas um lar? Essas crianças são abortadas duas vezes… Uma pelos pais e outra pela sociedade.

Muitas vezes, quem acaba adotando essa criança é o crime. O crime é um pai presente, que a faz sentir-se protegida, cercada de outros iguais, a faz sentir parte de algo. E ela perde. A sociedade perde. Mais uma vida perdida… pro crime.

O ativista que está lá na porta da clínica gritando “Não ao aborto!” é o mesmo que sobe a janela do carro quando vê uma criança no semáforo. A pessoa que condena quem pensa em abortar é a mesma que rejeita a ideia de deixar que seu filho brinque com uma criança moradora de rua. O cidadão que é a contra o aborto é o mesmo que é a favor de uma criança ser abortada pela sociedade quando fala contra a adoção de crianças por casais homoafetivos. Quem é a favor do nascimento de uma criança destinada ao sofrimento é a favor do aborto de uma criança em ritmo lento.

O que eu quero dizer com isso?

Na nossa sociedade é proibido matar, roubar, estuprar, mutilar, abusar…

No entanto, as pessoas matam, roubam, estupram, mutilam, abusam.

De acordo com os preceitos de Deus é errado mentir, julgar, acusar, trair, agir de má fé, além de tudo o que nossa sociedade também considera crime, e mesmo assim as pessoas ainda o fazem.

A pergunta é: “Desde quando a proibição surtiu efeito?”

A gente não consegue obrigar as pessoas a fazerem o que é certo apenas porque temos uma lei sobre isso.

Conduta e caráter se desenvolvem quando a gente tem como base o exemplo a ser seguido.

Eu não acho que o aborto deva ser alternativa em qualquer caso, mas eu não posso obrigar outras pessoas a pensar da mesma forma que eu.

E, tratando sob a perspectiva cristã, se o aborto é pecado, só Deus pode dizer, não eu.

Porque o que eu aprendi foi que não existem pecados maiores ou mais graves que outros. E a Bíblia é muito clara quando diz que todo homem é um pecador. Eu estou longe de ser alguém digno de submeter pessoas a julgamentos porque “Deus não vê como o homem vê” e eu, sem sombra de dúvidas, não chego nem perto da sabedoria dEle.

Socialmente, o aborto vai acontecer. Sendo permitido ou proibido, ele vai. E se ele não ocorrer clinicamente, o que ocorrerá será, de forma lenta, o aborto social. E nesse último caso, quem pagará o preço será a criança que não tem culpa de nada.

A criança que está dentro da barriga da mãe, no seu comecinho de vida, quando ela ainda nem tem consciência de que ela existe, está tendo quem grite por ela. Mas e quem está gritando a favor daquelas que sabem quem são, que entendem sua realidade e que são abortadas pela sociedade todo o santo dia?

 

Aqui deixarei o link para uma matéria intitulada Abandonadas e Descartadas – Mais de 150 milhões de crianças vivem nas ruas que traz alguns dados relatados por duas especialistas em direitos humanos da ONU sobre a condição dessas crianças, cobrando dos governos mais investimentos para atendimento dos direitos básicos.

 

Segue também outro link para conhecimento das responsabilidades de um tutor, para ilustrar que não é pelo simples fato de uma criança nascer com registro em documento, ser concebida pela mãe (e talvez também pelo pai) que ela está sendo acolhida. Muitas crianças são abandonadas dentro de sua própria casa.

Segue trecho do texto Menores Abandonados, que é uma transcrição do programa Vida e Valores (nº 105), apresentado por Raul Teixeira, sob coordenação da Federação Espírita do Paraná.

“…Aqueles que tem casa, que tem pão, que tem comida, que tem roupa, que tem quase tudo, mas lhes falta o amor dos pais, cabe-nos pensar no estilo de apoio que estamos dando as nossas crianças, nossos filhos, nossos menores.

E honestamente verificarmos se, apesar de todas as coisas que lhes damos, não estamos convertendo nossos filhos em outros tantos menores abandonados.”

 

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Sobre a Autora
Juliana Cremonine Maquiadora Profissional

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